Voltemos cinquenta anos no tempo. Se perguntássemos para qualquer um que tivesse um entendimento mínimo sobre cinema, livros e outras mídias semelhantes, sobre Zumbi, provavelmente ela, em primeiro momento, se sentiria indiferente e, só depois do choque, citaria o único exemplo que lhe remetesse à palavra: o ilustríssimo White Zombie (1932) - longa-metragem dirigida por Victor Halperin (Revolta dos Zumbis) e estrelado pelo fucking mestre do terror Bela Lugosi (Drácula). A Zumbi Branca, aliás, fora o primeiro filme que mostrou ao público a terrível imagem dos mortos reanimados que, a exemplo do longa, saíam de suas covas para fazer as vontades dos seres viventes - graças a poções misteriosas, cerimônias bizarras e feitiços vudus. Com o sucesso de White Zombie, as poções mágicas que transformavam as pessoas e os cadáveres em escravos sem cérebro continuaram populares nas décadas que sucederam.
Continuaram populares, pelo menos, até aquele primeiro dia de outubro de 1968.
Como no Universo nada é constante, a definição do zumbi não seria exceção.
A Noite dos Mortos-Vivos (1968) marca o ponto final de uma era repleta de cientistas loucos, gargalhadas malévolas e poções borbulhantes vomitando fumaça. O primeiro longa do mestre George A. Romero (Diário dos Mortos, Terra dos Mortos) é o meridiano entre o misticismo folclórico do início do século e o que veio, mais tarde, a se tornar o apocalipse científico e gore, que ainda mantém-se muito popular hoje em dia.
Um detalhe é que, no filme de 1968, em nenhum momento do longa-metragem os personagens chamam os mortos comedores de carne humana, de zumbis. Esse minúsculo detalhe que quase escapa aos ouvidos e olhos dos espectadores só reforça a terrível idéia de que ninguém faz a mínima idéia do que está acontecendo, ou o que estão enfrentando.
O ponto principal é que Romero mudou completamente a perspectiva de mortos-vivos. Chega de Haiti e de cemitérios profanados! Os zumbis não são mais pessoas saudáveis que possuem a mente controlada por algum mago excêntrico que pretende dominar o mundo com a ajuda de seus escravos sem cérebro. Nada disso!
Os zumbis, agora, são cadáveres putrefatos, corpos recém-mortos reanimados por uma causa misteriosa (Isso não quer dizer que há magia negra envolvida nisso), desmortos desengonçados e cambaleantes que emitem gritos abafados irreconhecíveis.
Os castelos mal-assombrados em colinas longínquas e as tempestades repletas de clarões dão lugar à crítica social, o terror psicológico e à violência explícita. O apocalipse zumbi tornou-se algo mais crível, incorporou premissas mais palpáveis - talvez por causa das inúmeras explicações de sua causa, variando desde testes militares fracassados e fora de controle até micro-organismos alienígenas. Os andarilhos ofereceram uma - provável - certeza quanto à causa da extinção da sociedade humana vigente, e isso agradou - e muito - os conspiradores e nerds do mundo todo.
A obra de Romero atraiu - e ainda atraí - milhões de fãs no mundo. O primeiro longa custou algo em torno de US$ 114 mil e arrecadou - contando bilheteria, posteriores relançamentos e outras bobagenzinhas do tipo - cerca de trezentas vezes mais, e também rendeu uma franquia constituída, até o momento, por seis filmes. Além disso, sua criação acarretou uma lista imensa - e quando eu digo imensa, é imensa mesmo - de novos filmes baseando-se nela. Alguns desses são extremamente bons, como Madrugada dos Mortos (2004) - regravação de seu segundo filme, Dawn of the Dead (1978), sob a direção de Zack Snyder (300, Watchmen) - e outros nem tanto, a exemplo de A Noite dos Mortos-Vivos 3D (2006) - segunda sofrível refilmagem do mesmo clássico.
Robert Kirkman (The Walking Dead), Max Brooks (O Guia de Sobrevivência a Zumbis) e Manel Loureiro (Apocalipse Z) são alguns exemplos dos inúmeros autores que produzem material de qualidade sobre os mortos-vivos e que, sem dúvida, honram a história de esse antagônico ser.
Pois bem, depois dessa leve introdução, vamos ao o que interessa.
Todo amante de zumbis - estou incluso nessa lista - já passou horas e mais horas bolando planos para sair da cidade infestada passando por pontos estratégicos para conseguir armas e suprimentos, já fez um inventário de equipamentos necessários para se sustentar durante meses, já criou uma lista de pessoas próximas que seriam essenciais para a construção e estabilização de um grupo de sobreviventes e escolheu a dedo uma série de lugares perfeitos para edificar o berço onde a sociedade há de renascer.
Pensando nessas táticas e testes que visam à sobrevivência e a inclusão de todos - pelo menos, todos os que se interessam - ao futuro violento e desesperador que possa vir a acontecer, vou fazer uma série de postagens intitulada O Guia do Mochileiro do Apocalipse. Serão cinco postagens, onde, cada uma delas, abordará um assunto específico (Os mais populares em guias de sobrevivência e fóruns sobre o assunto).
As postagens serão semanais e, entre elas, muito provavelmente, haverá apêndices - como vídeos, testes online e textos que abordem os assuntos da semana.
Chegamos ao fim dessa introdução à série. Até a postagem #01!
"Quando o inferno estiver cheio, os mortos andarão sobre a Terra."
Que a força esteja com você.

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